Na primeira leitura, o profeta Isaías nos apresenta a figura do Servo Sofredor. Ele não recua diante das dores, não foge das humilhações, não se esconde da perseguição. Pelo contrário, diz: “Ofereci as costas aos que me batiam”. Há aqui uma confiança inabalável: “O Senhor Deus é meu auxílio”. O Servo sabe que sofre, mas sabe também em quem colocou sua esperança. Sua força não está na ausência da dor, mas na certeza de que Deus caminha com ele.
Este Servo encontra sua plena realização em Jesus. No Evangelho, vemos o contraste doloroso: de um lado, o amor fiel de Cristo; de outro, a traição de Judas. Enquanto Jesus se entrega livremente, Judas negocia, calcula, vende o Mestre por trinta moedas. É o drama do coração humano que, muitas vezes, prefere interesses imediatos ao amor verdadeiro.
Mas o Evangelho nos inquieta profundamente, porque não é apenas a história de Judas — é um espelho para cada um de nós. Quando trocamos Cristo por nossas conveniências, quando silenciamos a verdade por medo, quando escolhemos o pecado mesmo conhecendo o bem, também nós, de alguma forma, repetimos o gesto da traição.
O Salmo expressa o clamor de quem sofre: “Por vossa causa suportei afrontas”. Jesus assume esse clamor. Ele experimenta o abandono, a solidão, a dor mais profunda — não apenas física, mas espiritual. E ainda assim, permanece fiel.
Esta é a grande lição para nós: a fidelidade a Deus não depende das circunstâncias favoráveis, mas de um coração decidido. Jesus sabia o que o aguardava, sabia da traição, sabia da cruz — e mesmo assim, não desistiu de amar.
Hoje somos chamados a nos perguntar: em que momentos temos sido Judas? Em que situações temos negociado nossa fé? Onde temos faltado com fidelidade a Cristo?
Mas há também uma esperança: diferente de Judas, que se fecha no desespero, nós somos convidados à conversão. Ainda é tempo de voltar, ainda é tempo de recomeçar, ainda é tempo de escolher Jesus.
Que, diante do amor fiel de Cristo, tenhamos coragem de abandonar tudo aquilo que nos afasta dele e, com confiança, possamos dizer com o profeta: “O Senhor Deus é meu auxílio; por isso não me deixei abater”.
E assim, caminhando com Cristo rumo à cruz, possamos também participar da sua vitória.
Assim seja.

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