Na primeira leitura, do livro de Daniel, encontramos a oração humilde de Azarias no meio da fornalha. Ele reconhece a fragilidade do povo e confessa que os pecados trouxeram sofrimento e humilhação. No entanto, mesmo no meio da prova, ele não se revolta contra Deus. Pelo contrário, coloca-se diante do Senhor com um coração arrependido e confiante: “Recebe-nos com coração contrito e espírito humilde”. É a oração de quem sabe que não pode salvar-se sozinho e que depende totalmente da misericórdia divina.
Essa atitude é fundamental para compreendermos o Evangelho. Quem reconhece sua própria pobreza espiritual torna-se capaz de compreender e oferecer misericórdia aos outros.
No Evangelho, Pedro pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Pedro já pensa estar sendo generoso. Na mentalidade da época, perdoar três vezes já era considerado suficiente. Pedro dobra esse número e acrescenta mais uma. Mas Jesus rompe completamente com essa lógica humana e responde: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.
Jesus não está falando de matemática. Ele está ensinando que o perdão não pode ter limites. O perdão deve ser um estilo de vida.
Para explicar isso, Jesus conta a parábola do servo impiedoso. Um homem devia ao rei uma quantia gigantesca, uma dívida impossível de pagar. Diante da súplica do servo, o rei se compadece e perdoa tudo. Mas logo depois, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia uma quantia mínima e se recusa a perdoá-lo, mandando-o para a prisão.
A parábola revela um contraste chocante. Quem recebeu misericórdia não foi capaz de oferecer misericórdia.
E aqui está o centro da mensagem de Jesus: todos nós somos esse primeiro servo. Nossa dívida diante de Deus é imensa. Nossos pecados, nossas infidelidades, nossas fraquezas seriam impossíveis de reparar por nós mesmos. Mas Deus, em sua infinita misericórdia, nos perdoa. Ele nos levanta, nos acolhe e nos dá sempre uma nova oportunidade.
Se fomos perdoados por Deus de uma dívida tão grande, como podemos negar perdão a quem nos ofende?
Muitas vezes carregamos dentro de nós ressentimentos antigos, mágoas profundas, feridas que parecem impossíveis de curar. O Evangelho de hoje nos provoca fortemente: guardar rancor é esquecer o quanto Deus já nos perdoou.
O perdão não significa esquecer a dor ou fingir que nada aconteceu. Perdoar é decidir não alimentar o ódio, é libertar o coração da prisão da vingança. Quem não perdoa permanece acorrentado ao passado; quem perdoa abre espaço para a graça de Deus agir.
A Quaresma é tempo de conversão. Talvez uma das conversões mais difíceis seja justamente essa: perdoar de verdade. Perdoar quem nos feriu, quem nos decepcionou, quem nos injustiçou.
Mas quando damos esse passo, mesmo que seja pequeno, o coração começa a experimentar uma liberdade nova. O perdão cura, liberta e reconstrói.
Por isso, hoje o Senhor nos convida a olhar para dentro de nós mesmos. Existe alguém que precisamos perdoar? Existe alguma mágoa que ainda guardamos?
Peçamos a Deus a graça de ter um coração semelhante ao Dele: um coração capaz de perdoar sempre. Porque quem vive do perdão de Deus deve também tornar-se instrumento desse mesmo perdão no mundo.
Assim seja.

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