Na primeira leitura, retirada do Segundo Livro dos Reis, encontramos a história de Naamã, general do exército da Síria. Era um homem poderoso, respeitado e vitorioso, mas carregava uma grande ferida: era leproso. Apesar de toda a sua riqueza e prestígio, ele não podia curar a si mesmo. Foi então que, por meio da palavra de uma simples serva, ele ouviu falar do profeta Eliseu, em Israel.
Naamã parte em busca da cura, mas quando chega até o profeta, encontra algo que não esperava. Eliseu nem sequer sai para recebê-lo pessoalmente. Apenas manda dizer que ele vá lavar-se sete vezes no rio Jordão. Aquilo parece simples demais para alguém tão importante. Naamã se irrita, sente-se humilhado e quase vai embora sem receber o milagre.
Quantas vezes nós também somos assim! Esperamos que Deus aja de maneira grandiosa, espetacular, conforme as nossas expectativas. Mas Deus frequentemente age na simplicidade. Deus se manifesta no humilde, no pequeno, no cotidiano.
Felizmente, Naamã escuta o conselho de seus servos e decide obedecer. Desce ao Jordão, mergulha sete vezes e, naquele gesto simples de humildade e confiança, recebe a cura. Sua pele torna-se pura como a de uma criança. Mais do que a cura física, acontece uma transformação interior. Naamã passa a reconhecer o Deus de Israel como o único Deus verdadeiro.
O milagre começou quando ele deixou de lado o orgulho.
No Evangelho, encontramos Jesus na sinagoga de Nazaré, sua própria terra. Depois de anunciar a Palavra, Ele lembra dois episódios do Antigo Testamento: o profeta Elias ajudando a viúva estrangeira de Sarepta e Eliseu curando Naamã, que também era estrangeiro.
A mensagem é clara: a graça de Deus não tem fronteiras. O amor de Deus não se limita a um povo, a uma cultura ou a um grupo. Deus quer salvar a todos.
Mas aquela verdade incomodou profundamente os ouvintes de Jesus. Eles conheciam Jesus desde pequeno. Sabiam quem era sua família. Para eles era difícil aceitar que aquele homem simples fosse o enviado de Deus. O coração deles se fechou.
E aquilo que começou como admiração transformou-se em rejeição. O Evangelho diz que ficaram cheios de fúria e quiseram até mesmo jogar Jesus do alto do monte.
É impressionante como o coração humano pode resistir à graça de Deus.
Aqueles homens conheciam Jesus, mas não o reconheceram. Estavam perto dele, mas não se abriram à sua mensagem.
Essa Palavra nos convida hoje a um exame de consciência. Muitas vezes nós também corremos esse risco: acostumar-nos com Deus. Acostumar-nos com a fé, com a Igreja, com a Palavra. Escutamos o Evangelho tantas vezes que podemos cair na ilusão de que já sabemos tudo, e o coração acaba se fechando para a novidade de Deus.
Deus fala conosco de muitas maneiras: na Palavra, na vida da Igreja, nas pessoas simples, nos acontecimentos do dia a dia. Mas para reconhecer a ação de Deus é preciso humildade.
Naamã foi curado quando abandonou o orgulho. O povo de Nazaré perdeu a graça porque se deixou dominar pela soberba e pela incredulidade.
Hoje a Palavra nos pergunta: como está o nosso coração? Um coração fechado, que se escandaliza e rejeita, ou um coração humilde, capaz de confiar e obedecer?
Peçamos ao Senhor a graça de um coração simples e aberto. Um coração que saiba reconhecer a presença de Deus, mesmo quando ela se manifesta na simplicidade. Porque é justamente assim que Deus costuma agir: no silêncio, na humildade e naqueles que o mundo muitas vezes não valoriza.
Que a Palavra de hoje nos ajude a vencer o orgulho, a superar a incredulidade e a acolher, com fé e humildade, a graça que Deus deseja derramar em nossa vida.
Assim seja.

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