O profeta Isaías nos apresenta a figura do Servo do Senhor: “Eis o meu servo, a quem eu sustento… não quebrará a cana rachada, nem apagará o pavio que ainda fumega.” Este Servo não vem com violência, não impõe sua força, não grita para ser ouvido. Ele age na mansidão, na fidelidade e na perseverança. É a imagem de um Deus que não destrói o fraco, mas o sustenta; que não condena o pecador, mas o levanta. Este Servo é Cristo, que entra na sua Paixão não como um derrotado, mas como aquele que, no silêncio, realiza a obra da salvação.
O Salmo reforça essa confiança: “O Senhor é minha luz e salvação.” Em meio às trevas que se aproximam — a traição, a dor, a cruz — Jesus permanece firme, porque sabe em quem confia. E nós somos convidados a fazer o mesmo: confiar, mesmo quando tudo parece escuro; esperar, mesmo quando o sofrimento parece vencer.
No Evangelho, contemplamos uma cena profundamente significativa: Maria unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo e os enxuga com seus cabelos. É um gesto de amor extravagante, sem cálculos, sem medidas. Maria compreende o que muitos ainda não entenderam: Jesus caminha para a morte. Seu gesto é profético, prepara o corpo do Senhor para a sepultura.
Enquanto isso, Judas protesta. Ele não entende o amor, porque seu coração está preso ao interesse. O Evangelho é claro: ele não se preocupava com os pobres, mas era ladrão. Aqui está o contraste: de um lado, o amor gratuito, que se doa totalmente; de outro, o coração fechado, que calcula, que se corrompe, que trai.
Esta Palavra nos interpela profundamente: com quem nos parecemos? Com Maria, que ama sem medidas, ou com Judas, que vive de aparências e interesses? Nossa fé é um perfume derramado aos pés do Senhor ou um discurso vazio que esconde egoísmo?
A Semana Santa é tempo de decisão. Não podemos permanecer neutros diante de Cristo. Ele se entrega totalmente por nós. E nós, o que estamos dispostos a oferecer?
Peçamos a graça de um coração como o de Maria: sensível, generoso, capaz de reconhecer Jesus e de se doar sem reservas. E que, sustentados pela confiança do Salmo e iluminados pela figura do Servo sofredor, possamos caminhar com Cristo até a cruz, certos de que a cruz não é o fim, mas o caminho para a vida nova.
Assim seja.

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