Na primeira leitura, contemplamos a história de Susana, uma mulher justa, vítima da maldade e da mentira. Dois anciãos, movidos pela corrupção do coração, tentam forçá-la ao pecado e, diante da recusa, levantam falso testemunho contra ela. Susana é condenada injustamente, mas, em sua aflição, clama ao Senhor. Deus escuta o clamor dos inocentes e suscita o jovem Daniel, que, com sabedoria, desmascara a mentira e restabelece a verdade. Essa narrativa revela que Deus não abandona os que permanecem fiéis, mesmo quando tudo parece perdido. Ele é o justo juiz que conhece os corações.
O salmo reforça essa confiança: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Mesmo quando atravessamos o vale escuro das injustiças, das perseguições e das dores, não estamos sozinhos. O Senhor caminha conosco, sustenta-nos e nos conduz à vida.
No Evangelho, encontramos uma situação semelhante, mas com um desfecho ainda mais surpreendente. Uma mulher é apanhada em adultério e levada a Jesus. Os escribas e fariseus não estão interessados na verdade nem na justiça, mas em armar uma armadilha. Usam a Lei para condenar, mas esquecem-se da misericórdia.
Jesus, porém, não entra no jogo da acusação. Ele se inclina, escreve no chão e, depois, pronuncia uma palavra que atravessa os séculos: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Um a um, começando pelos mais velhos, todos se retiram. Permanecem apenas Jesus e a mulher.
Neste momento, revela-se o coração de Deus: “Ninguém te condenou? Nem eu te condeno. Vai, e não peques mais”. Jesus não relativiza o pecado, mas também não reduz a pessoa ao seu erro. Ele oferece misericórdia e, ao mesmo tempo, chama à conversão.
Há um contraste forte entre as duas atitudes: de um lado, os acusadores, prontos para condenar; de outro, Deus, que conhece a verdade, mas oferece sempre uma nova chance. Somos convidados a nos perguntar: com quem nos identificamos? Com os que julgam e condenam, ou com Cristo, que acolhe e transforma?
Muitas vezes, somos rápidos em apontar o erro dos outros, mas lentos em reconhecer as próprias falhas. Carregamos pedras nas mãos — pedras de julgamento, de palavras duras, de exclusão. Jesus hoje nos convida a soltar essas pedras. Antes de olhar o pecado do outro, é preciso reconhecer a própria fragilidade.
Ao mesmo tempo, essa Palavra também é para nós quando nos sentimos como a mulher do Evangelho: acusados, envergonhados, paralisados pelos nossos erros. Cristo nos olha com misericórdia, levanta-nos e nos dá a oportunidade de recomeçar. Ele não nos define pelo pecado, mas pela possibilidade de redenção.
Portanto, irmãos e irmãs, esta liturgia nos ensina que a verdadeira justiça de Deus passa pela verdade e pela misericórdia. Ele defende o inocente, como fez com Susana, e resgata o pecador arrependido, como fez com a mulher adúltera.
Peçamos ao Senhor a graça de um coração semelhante ao de Cristo: firme na verdade, mas cheio de compaixão; capaz de rejeitar o pecado, mas nunca de excluir o pecador. E que, libertos de nossas pedras, possamos ser instrumentos de misericórdia no mundo.
Assim seja.

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