A VOZ DO PASTOR - HOMILIA DIÁRIA - 21/03/2026


As leituras de hoje nos convidam a refletir sobre a fidelidade a Deus em meio às perseguições e incompreensões. A Palavra nos mostra que, ao longo da história da salvação, aqueles que procuram viver segundo a vontade de Deus frequentemente enfrentam resistência, dúvidas e até rejeição.

Na primeira leitura, do livro do profeta Jeremias, vemos o sofrimento de um homem escolhido por Deus para anunciar a verdade. Jeremias descobre que estão tramando contra a sua vida. Aqueles que deveriam acolher a Palavra de Deus tornam-se seus inimigos. Mesmo assim, o profeta não busca vingança nem se deixa dominar pelo medo. Ele confia sua causa ao Senhor, que conhece o coração de cada pessoa e julga com justiça. Jeremias torna-se, assim, uma figura que antecipa o próprio Cristo: o justo perseguido, que permanece fiel à missão recebida de Deus.

O salmo responsorial continua nessa mesma linha de confiança. O salmista clama: “Senhor meu Deus, em vós procuro o meu refúgio”. Diante das perseguições e ameaças, ele não se apoia em suas próprias forças, mas coloca sua segurança em Deus. O Senhor é apresentado como aquele que defende os justos e conhece o mais íntimo do coração humano. Essa atitude de abandono confiante em Deus é um caminho que também somos chamados a seguir.

No Evangelho, vemos como a presença e a palavra de Jesus provocam divisão entre o povo. Alguns reconhecem nele o profeta esperado, outros dizem que ele é o Messias. Mas há também aqueles que rejeitam essa possibilidade, presos às suas ideias e preconceitos. A discussão cresce e a multidão se divide. Mesmo entre as autoridades, há quem queira prendê-lo e quem perceba que algo diferente existe em suas palavras.

Esse Evangelho revela uma realidade muito presente também em nossos dias: Jesus continua provocando escolhas. Diante dele, ninguém permanece totalmente neutro. Sua palavra toca os corações, questiona as seguranças humanas e revela o que está escondido no interior das pessoas.

Alguns guardas enviados para prender Jesus voltam sem cumprir a ordem e dizem algo muito significativo: “Ninguém jamais falou como este homem”. Eles foram tocados pela autoridade e pela verdade de suas palavras. Esse testemunho simples mostra que, quando o coração se abre sinceramente, é possível reconhecer a presença de Deus.

Por outro lado, muitos líderes religiosos permanecem fechados. Julgam Jesus sem realmente escutá-lo. Estão mais preocupados em defender suas posições do que em buscar a verdade. Esse fechamento do coração impede que reconheçam a ação de Deus diante deles.

Entre eles aparece Nicodemos, que já havia procurado Jesus anteriormente. Mesmo sem uma fé plena ainda, ele tenta introduzir um pouco de justiça na discussão, lembrando que ninguém pode ser condenado sem antes ser ouvido. Sua atitude mostra que a verdade começa a abrir caminho, ainda que de forma discreta.

A liturgia de hoje nos convida a examinar também o nosso coração. Diante de Jesus, como reagimos? Estamos abertos à sua Palavra ou presos às nossas ideias e preconceitos? Muitas vezes podemos escutar o Evangelho repetidas vezes, mas sem permitir que ele realmente transforme nossa vida.

A caminhada quaresmal é um tempo privilegiado para essa conversão interior. Somos chamados a escutar Jesus com mais atenção, deixar que sua Palavra ilumine nossas atitudes e renovar nossa confiança em Deus, mesmo nas dificuldades.

Assim como Jeremias confiou sua causa ao Senhor e como alguns começaram a reconhecer a verdade nas palavras de Jesus, também nós somos convidados a permanecer firmes na fé. Mesmo quando a fidelidade ao Evangelho traz incompreensão ou críticas, sabemos que Deus conhece nosso coração e sustenta aqueles que caminham na justiça.

Que esta Palavra fortaleça nossa confiança no Senhor e nos ajude a acolher cada vez mais profundamente Jesus Cristo, aquele que fala com autoridade e revela ao mundo o amor e a verdade de Deus.

Assim seja.

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