Na primeira leitura, do Livro da Sabedoria, vemos a descrição da atitude dos ímpios diante do justo. Eles se incomodam com a vida daquele que procura viver segundo Deus. O justo, com sua maneira de agir, torna-se uma espécie de acusação viva contra aqueles que escolhem o caminho do mal. Por isso dizem: “Armemos ciladas ao justo, porque ele nos incomoda”. Eles querem prová-lo, testá-lo, humilhá-lo, para ver se Deus realmente o defende.
Esse texto, escrito séculos antes de Cristo, parece quase uma profecia daquilo que acontecerá com Jesus. O justo por excelência é o próprio Cristo. Sua vida, sua palavra e sua fidelidade ao Pai provocam resistência e oposição. A presença de Jesus incomoda aqueles que preferem viver nas trevas.
O Salmo responde a essa situação com uma grande esperança: “O Senhor está perto da pessoa que tem o coração ferido”. Deus não abandona o justo. Mesmo quando ele passa por tribulações, o Senhor o sustenta. O salmista reconhece que “muitas são as tribulações do justo”, mas afirma também que “de todas elas o Senhor o liberta”. A justiça de Deus não falha, ainda que muitas vezes sua ação pareça silenciosa aos nossos olhos.
No Evangelho, vemos Jesus caminhando em meio a um ambiente de desconfiança e hostilidade. Ele vai a Jerusalém durante a festa, mas não se apresenta publicamente desde o início, porque já havia uma trama contra sua vida. Mesmo assim, quando começa a ensinar, o povo se divide. Alguns se perguntam se ele não seria o Messias, enquanto outros procuram motivos para rejeitá-lo.
Percebemos aqui algo muito humano: a dificuldade de reconhecer a presença de Deus quando ela não corresponde às nossas expectativas. Muitos pensavam conhecer a origem de Jesus e, por isso, achavam impossível que ele fosse o Messias. No entanto, Jesus afirma que sua verdadeira origem está no Pai que o enviou.
Apesar das tentativas de prendê-lo, ninguém consegue tocar nele, porque “a sua hora ainda não havia chegado”. Essa expressão do Evangelho revela que a vida de Jesus está nas mãos do Pai. Não são os planos humanos que determinam o momento de sua entrega, mas o projeto de Deus.
Essas leituras também nos ajudam a olhar para nossa própria vida cristã. Seguir a Cristo nem sempre significa aplausos ou reconhecimento. Muitas vezes, viver o Evangelho provoca incompreensão, críticas ou rejeição. O mundo nem sempre aceita quem procura viver na verdade, na justiça e na fidelidade a Deus.
No entanto, a Palavra de hoje nos convida à perseverança. Deus conhece o coração dos justos e permanece ao lado daqueles que confiam nele. Mesmo nas dificuldades, o Senhor sustenta, fortalece e conduz seus filhos.
Estamos caminhando na Quaresma, tempo de conversão e de aprofundamento da nossa fé. As leituras de hoje nos ajudam a compreender que o caminho de Jesus passa pela rejeição e pela cruz, mas também nos conduzem à esperança. O justo perseguido não é abandonado por Deus.
Que, ao contemplarmos Cristo, o Justo que sofreu por amor a nós, possamos renovar nossa confiança no Senhor e permanecer firmes no caminho do Evangelho, certos de que Deus está sempre próximo daqueles que lhe são fiéis.
Assim seja.

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