As leituras de hoje nos mergulham no coração da misericórdia de Deus. O profeta Miqueias contempla, admirado: “Qual Deus é como tu, que apagas a culpa e perdoas o pecado?” (Mq 7,18). Já o salmista proclama: “O Senhor é bondoso e compassivo”. E no Evangelho segundo São Lucas, Jesus nos apresenta a parábola do filho pródigo, ou melhor, a parábola do Pai misericordioso (Lc 15,1-3.11-32).
Tudo começa com a crítica dos fariseus e mestres da Lei, que murmuravam porque Jesus acolhia os pecadores. É em resposta a essa murmuração que Jesus conta a parábola. Ele quer revelar o verdadeiro rosto de Deus: não um juiz severo que se alegra em condenar, mas um Pai que espera, que sofre com a ausência do filho e que corre ao seu encontro quando o vê voltar.
O filho mais novo representa cada um de nós quando, seduzidos pela ilusão de autonomia, pedimos a herança — isto é, queremos os dons de Deus, mas sem Deus. Queremos a vida, mas sem o Pai. Afastamo-nos, desperdiçamos os bens, perdemos a dignidade. O pecado sempre nos leva a uma terra distante, à fome interior, à perda do sentido.
Mas o ponto decisivo do Evangelho é quando o filho “cai em si”. A conversão começa dentro do coração, quando reconhecemos nossa miséria e lembramos da casa do Pai. Ele decide voltar, não mais como filho, mas como servo. Contudo, ao retornar, é surpreendido: o Pai o avista de longe, corre ao seu encontro, abraça-o e o cobre de beijos. Não há interrogatório, não há humilhação, não há cobrança. Há festa. Há restauração da dignidade: a melhor túnica, o anel, as sandálias. O filho que estava morto voltou à vida.
Assim é Deus. Como disse o profeta Miqueias, Ele lança nossos pecados no fundo do mar. O salmo confirma: “Como o Oriente dista do Ocidente, assim afasta de nós nossos pecados”. Deus não nos trata segundo nossas faltas; Ele nos trata segundo o seu amor.
Mas a parábola não termina aí. Surge o filho mais velho, que nunca saiu de casa, mas cujo coração também está distante. Ele representa o risco de uma religiosidade sem misericórdia. Cumpre deveres, mas não compreende o amor. Sente-se justo, mas não se alegra com a conversão do irmão. Também ele precisa entrar na lógica do Pai.
Nesta Quaresma, a Palavra nos convida a fazer um duplo caminho: reconhecer-nos no filho que partiu e precisa voltar, e também vigiar para não nos tornarmos o filho mais velho, incapaz de acolher e perdoar. Deus nunca se cansa de nos esperar. Ele não se alegra com a queda do pecador, mas com sua volta.
Que hoje deixemos cair nossas resistências e retornemos à casa do Pai. Lá nos espera não um tribunal, mas um abraço. Não uma condenação, mas uma festa. Porque nosso Deus é rico em misericórdia, fiel ao seu amor e sempre disposto a recomeçar conosco.
Assim seja.

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