A VOZ DO PASTOR - HOMILIA DIÁRIA - 05/03/2026


As leituras de hoje colocam diante de nós dois caminhos, duas escolhas, dois destinos. O profeta Jeremias proclama: “Maldito o homem que confia no homem… Bendito o homem que confia no Senhor”. Não se trata de desprezar as pessoas, mas de não colocar nelas – ou em si mesmo – o lugar que pertence somente a Deus. Quem faz das seguranças humanas o seu absoluto acaba com o coração árido, como terra seca no deserto. Mas quem confia no Senhor é como árvore plantada junto às águas: mesmo em tempo de seca, permanece verde e dá frutos.

O Salmo 1 reforça essa imagem: o justo é como árvore frondosa, enquanto o ímpio é como palha que o vento dispersa. A diferença não está nas aparências externas, mas na raiz. Onde está enraizado o nosso coração? Em Deus ou nas ilusões passageiras?

No Evangelho, Jesus conta a parábola do rico e de Lázaro. O homem rico não é condenado porque era rico, mas porque viveu fechado em si mesmo. Vestia-se de púrpura, banqueteava-se todos os dias, mas era incapaz de enxergar o pobre que jazia à sua porta. Lázaro tinha nome; o rico, não. Diante de Deus, aquele que o mundo ignora é conhecido pelo nome, enquanto aquele que vive apenas para si perde até a própria identidade.

A grande tragédia do rico não foi a riqueza, mas a indiferença. Ele não maltratou Lázaro; simplesmente não o via. E a indiferença endurece o coração. Jeremias já dizia: “O coração é enganador”. Podemos nos convencer de que está tudo bem, de que não fazemos mal a ninguém, enquanto ignoramos o sofrimento ao nosso redor.

Depois da morte, a situação se inverte. Não como vingança, mas como revelação da verdade. A vida que cada um escolheu manifesta-se plenamente. Quem viveu fechado permanece fechado; quem confiou em Deus encontra n’Ele o consolo eterno.

O rico pede que alguém avise seus irmãos. A resposta é clara: “Eles têm Moisés e os Profetas”. Nós poderíamos dizer hoje: temos a Palavra, temos os sacramentos, temos a Igreja. Não precisamos de sinais extraordinários. A conversão começa quando permitimos que a Palavra de Deus toque nosso coração agora.

Esta liturgia nos faz uma pergunta direta: onde está a nossa confiança? Em quem temos colocado nossa segurança? Somos árvore plantada junto às águas ou estamos secando por dentro? Conseguimos enxergar os “Lázaros” que Deus coloca à nossa porta todos os dias?

Peçamos ao Senhor a graça de um coração sensível, capaz de confiar n’Ele acima de tudo e de reconhecer Cristo presente nos pobres. Que a nossa vida não seja marcada pela indiferença, mas pela caridade concreta. Assim seremos verdadeiramente benditos, porque teremos feito do Senhor a nossa confiança.

Assim seja.

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