A VOZ DO PASTOR - HOMILIA DIÁRIA - 12/03/2026


As leituras que a liturgia nos apresenta hoje são um forte apelo à escuta de Deus e à conversão do coração. Elas nos confrontam com uma realidade muito presente na história do povo de Deus e também na nossa vida: a dificuldade de ouvir verdadeiramente a voz do Senhor.

Na primeira leitura, o profeta Jeremias transmite uma palavra firme de Deus ao seu povo. O Senhor recorda que o essencial não são ritos vazios, mas a obediência à sua voz: “Escutai a minha voz, e eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo.” Desde a saída do Egito, Deus enviou profetas para orientar o povo, chamando-o à fidelidade. Porém, em vez de escutar, o povo endureceu o coração. A Palavra diz que eles caminharam “para trás e não para frente”. Quando o coração se fecha a Deus, a vida não avança, não cresce espiritualmente; ela se torna estagnada e perdida.

O salmo de hoje retoma exatamente esse chamado: “Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor: não fecheis os vossos corações.” A liturgia insiste nesse “hoje”. Não é um convite para outro momento, para amanhã ou para quando for mais conveniente. É hoje que Deus fala. É hoje que Deus chama. Cada dia é uma oportunidade nova de conversão.

No Evangelho, Jesus expulsa um demônio e devolve a fala a um homem que era mudo. Diante desse sinal evidente do poder de Deus, muitos se admiram, mas outros, em vez de reconhecerem a ação divina, tentam desacreditar Jesus, dizendo que Ele expulsa os demônios pelo poder de Belzebu. É impressionante perceber como um coração fechado pode distorcer até mesmo o bem evidente.

Jesus então responde com clareza: um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir. Se Ele expulsa os demônios, é porque o Reino de Deus chegou. Com sua presença, o poder do mal começa a ser derrotado. Cristo é o mais forte que vence o “homem forte”, que simboliza o poder do maligno.

E então Jesus pronuncia uma frase muito séria: “Quem não está comigo, está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa.” Não existe neutralidade na vida cristã. Não se pode viver uma fé morna, indiferente, distante. Ou caminhamos com Cristo, ou acabamos nos afastando dele.

Unindo as leituras, percebemos que o grande problema não é a falta de sinais de Deus, mas a dureza do coração humano. Deus fala, Deus age, Deus envia profetas, Deus realiza milagres — mas, se o coração está fechado, nada disso produz mudança.

A Quaresma, tempo que estamos vivendo, é justamente um tempo favorável para quebrar essa dureza interior. É tempo de voltar a escutar Deus com sinceridade. Muitas vezes nos acostumamos com a Palavra, com a missa, com a oração, mas sem permitir que tudo isso transforme verdadeiramente a nossa vida.

O Senhor nos pede hoje uma atitude simples e profunda: escutar. Escutar com humildade, com disposição para mudar. Escutar mesmo quando a Palavra nos corrige, nos incomoda ou nos chama a abandonar certos caminhos.

Se abrirmos o coração, Cristo vence em nós tudo aquilo que nos prende ao pecado, ao orgulho e à indiferença. Ele é o mais forte que entra em nossa casa interior para libertar-nos. Mas essa libertação começa quando deixamos de resistir à sua voz.

Por isso, hoje o Senhor nos repete: “Oxalá ouvísseis hoje a minha voz.” Que não sejamos como aqueles que ouviram os profetas e não mudaram de vida. Que não sejamos como os que viram os milagres de Jesus e ainda assim duvidaram. Que sejamos um povo que escuta, que acredita e que caminha com o Senhor.

Abramos o coração. Escutemos a voz de Deus. E caminhemos com Cristo, porque somente com Ele a nossa vida encontra verdadeira liberdade e salvação.

Assim seja.

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